• Adriana Amorim

Dessa vez não

Por: Adriana Amorim

Das muitas tradições equivocadas, hipervalorizadas e extremamente nocivas à sociedade, as que mais persistem e seguem promovendo horrores são aquelas arraigadas no machismo e na misoginia. De tão antigas e estabelecidas, a gente quase não as percebe como verdadeiros crimes que são. E mesmo num futuro utópico ou distópico, elas querem seguir firmes. Mas dessa vez, João, dessa vez não!

Cartaz: Anderson Prado
Cartaz: Anderson Prado

Escolher ter um filho. Escolher quando e como. Escolher seu gênero. Escolher seu nome. Tudo o que João decide, Raquel aceita, porque lhe é imposto aceitar. A categoria de sua cria, o sistema é quem define, pelo status, pelo patrimônio, pela linhagem, pelo saldo bancário. Mas o nome... Ah, o nome, não. Aquilo que nos define, aquele signo que nos acompanha vida afora, este, Raquel ganhou na sorte o direito de escolher. Pois bem. A tradição, essa mesma que dá ao pai, e só a ele, o direito de registrar a criança, declarando seu nome, ainda que diferente daquele decidido em comum acordo, essa tradição faz com que João possa, tranquilamente, dar-lhe o nome que bem quiser. Mas dessa vez, João, dessa vez não!

O garfo já vinha entortando havia dias. Já até havia sido dispensado, mas regressou. Aquilo que já não servia mais em casa e que por Raquel havia sido descartado, voltou à mesa. Torto. Pronto para machucar e inútil para o que deveria servir. Exatamente como certas tradições. A Raquel, sempre vinham bem as cores quentes de “dêndi casa” ou os frios uniformes do trabalho externo. João até já vinha se avermelhando aos poucos, nos trajes que de um azul pleno passaram a aceitar um rosa delicado. Mas nem isso serviu de nada. Entre o reinado da novidade e a tradição das heranças paternas, ganhou a segunda. Pela força, pela mentira, pela nefasta esperteza no uso da tradição. Mas dessa vez, João, dessa vez não!

Valdineia Soriano. Um nome pomposo e desafiador. Uma fera em cena. Rainha, ela. Atriz. Um corpo consciente que baila diante de nossos olhos, preenchendo a tela inteira de vida, sentido e sentimento. Vado Souza, duro como uma pilastra. De olhar profundo, cortante, desagradável. Que dupla. Que elenco. Quanto olhos tem esse Ovo? Filme é, acima de tudo, coisa de intérprete. Muitas vezes os efeitos de imagem, de som, de edição roubam a cena, chamam a atenção, enganam a plateia. Mas dessa vez, João, dessa vez não.

E de dentro de um ovo, meio rosa, meio azul, saiu a menina roceira, que sentou nos bancos de uma universidade pública, que vem empreendendo longas e variadas jornadas, que desbrava festivais, cursos, projetos; que estuda, aprecia, investiga e realiza. Dessa vez, João, quem vai escolher o nome da criança é ela. É Rayanne Teles, um misto de Reginas e Mirtes, de Raquéis, Terezas e Valdinéias quem dá as cartas no misógino e machista mundo da produção cinematográfica. É ela que, a despeito de toda distopia do agora, sorri, dança, trabalha, resiste e ensaia brincadeiras para um futuro próximo.

Raquel avisou, João: dessa vez não. Você não quis escutar. Agora, fique com seu garfo torto sobre a mesa vazia, porque nós… nós vamos ali chocar o ovo da revolução. Dá licença, João, mas agora, nós vamos reinar!


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